Não somos civilizados com os animais

A maior parte dos animais deste país está jogada feito lixo pelas ruas, levando pontapés e revirando restos podres para se alimentar.

Não estamos sozinhos no mundo, mas parece que nos esquecemos disso. Temos atitudes que beiram a incivilidade, sobretudo no tratamento dispensado aos animais.

Esqueçam as amenidades que lemos nas "seções Pet". A maior parte dos animais deste país está jogada feito lixo pelas ruas: levando pontapés, revirando restos podres, morrendo de doenças e verminoses, quando não envenenada.

ONGs brasileiras sérias lutam para difundir conhecimento técnico de qualidade no país. Mas, não raro, seus projetos são bancados pela dilapidação do patrimônio pessoal dos seus diretores, heróis anônimos. Faltam verbas modestas que permitiriam dar continuidade a trabalhos importantes, mas não falta dinheiro para a corrupção.


O caso da leishmaniose, por exemplo, é emblemático. O Brasil segue o mesmo protocolo do século passado para lidar com a doença. É o único país que mata os cães infectados (e que não transmitem a doença) em vez de tratá-los. Mesmo assim, a doença avança em ritmo acelerado.

Políticos se apossam da causa animal como mote de campanha, e uma vez eleitos, quase sempre dão um show --de despreparo!
Nossos veterinários são tratados como uma classe médica inferior --não recebem o pagamento nem o respeito que merecem.

As empresas do país são medíocres: investem em tolas ações de marketing e não enxergam quanto valor poderiam agregar com ações de responsabilidade social e ambiental em benefício dos animais.
Uma pesquisa realizada pelos institutos Akatu e Ethos revela que para 87% dos consumidores ouvidos, é importante ou muito importante na decisão de compra que "durante a produção, animais não tenham sido maltratados". Mesmo assim, a cadeia da proteína animal só agora está dando os primeiros passos para promover a criação, o transporte e o abate de forma humanitária.

O serviço de transporte de pets das grandes empresas aéreas é de má qualidade, deixando quem viaja com seu animal de estimação sempre angustiado. Agências de publicidade movimentam fortunas com peças que exploram a graça e a beleza de animais fofinhos. E o que os anunciantes e suas agências fazem realmente pela causa? Nada!

Nos Jogos Olímpicos de 2016, a mascote será a fauna (a flora é a mascote da Paraolimpíada). Que ótimo. Mas o que o Comitê Olímpico Brasileiro fará pelas entidades que cuidam da fauna brasileira? O que a Fifa fez pelos tatus-bola do Brasil, eternizados pelo mascote da última Copa do Mundo, o Fuleco?

Educar nossa sociedade é fundamental. Nos últimos 20 anos, recebemos em sala de aula informações importantes sobre o meio ambiente, mas nossas escolas nem mencionam a questão animal. Uma exceção exemplar é a iniciativa da Secretaria de Educação do Estado de São Paulo em conjunto com a Fundação Faculdade de Medicina..

Investir no respeito aos bichos seria um bom passo rumo à melhoria da nossa civilidade. Estamos vivendo uma "normose social", não nos sensibilizamos mais com atrocidades, tudo parece normal. Precisamos urgentemente nos tornar mais compassivos e amorosos.

JOÃO FRANCISCO MOTTA FIERRO, 51, terapeuta, é vice-presidente da Arca Brasil, organização não governamental com sede em São Paulo que defende o bem-estar animal.
http://www.arcabrasil.org.br/

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