Deuses e seus cães - Nehalennia

ICONOGRAFIAS E RELIGIOSIDADE: DO SÉCULO II D.C PARA O SÉCULO XXI D.C

Introdução
Nehalennia, deusa intrigante da antiguidade, natural do Mar do Norte é envolvida em uma atmosfera de mistério. Muitas vezes representada ao lado de seu cão, é elemento de ligação entre germânicos, celtas e romanos. É cultuada ainda hoje, mas pouco se sabe sobre ela. Razão de orgulho para o povo holandês, cruzou o Atlântico e ainda é motivação para a religiosidade e a produção de imagens na Europa e na América. Suas imagens do passado e do presente nos servem de roteiro para analisar a relação entre os devotos e esta divindade.

Cães, deuses e povos antigos
A figura do cão entre as tribos célticas, povos germânicos e escandinavos além dos conquistadores romanos, parece sempre ter sido valorizada. Seja em questões de banquetes sacrificiais ou como um parceiro fiel, o cão tem estado presente no cotidiano destes povos.
Em muitos casos, o conquistador adquire valores e hábitos de seus conquistados. Sendo assim o apreço pelo cão, que parece já seria comum entre os romanos, fica reforçado a partir do contato com os celtas.

Divindades dos três eixos culturais mencionados relacionam-se ao cão e possivelmente ele representaria a imagem de proteção, mas também a de um guia para aqueles que viajam ou cruzam caminhos. É possível citar inúmeros deuses destas mitologias e de outras que figuram com seus cães em diferentes sagas. Nelas os cães sempre estão ligados à proteção, enfrentamento dos perigos, provas de força, o ato de devorar e ao acesso garantido ao outro mundo.

Para os celtas da Gália o cão era de grande estima, gozando de lugares no túmulo ao lado de seu dono, inscrições carinhosas e seus retratos esculpidos nas lápides à maneira romana. (DUVAL, 1952: 261-262). Na Bretanha e Gália há evidencias em Hampshire de sacrifícios de cães que eram colocados em silos fora de uso. No templo de Gurnay foram encontrados sinais de que eram servidos como alimento em banquetes sagrados. Ainda no poema de Taliesen, Cwn Annun, encontramos alusão aos Cães de Annun que eram a
companhia de Arawn em sua missão de limitar a entrada no Outro Mundo (GREEN, 1993:61). Analisando as questões mágicas podemos perceber que se oferece em sacrifício aquilo que é muito estimado como uma prova de lealdade e apreço aos deuses.

Deuses que se fazem acompanhar por cães geralmente estão ligados ao mundo dos mortos e este é um traço comum nas mitologias do mundo todo. Hécate e seu cão tricéfalo Cérbero com sua cauda com cabeça de serpente na Grécia; Hell e seu cachorro Garm entre os germânicos e nórdicos; Xolotl, um
deus que se manifesta como cão, com um olho vazado e patas para trás, é conhecido como o que fecha as cortinas da noite porque acompanhou o sol em sua estada sob a terra na mitologia asteca; entre os caiapós existe o mito do Lago dos Cães onde estes animais gigantescos devoram uma criança e em outra etapa são levados para as aldeias sendo domesticados e cruzados com cães menores. Em uma comparação superficial é possível notar que os cães ou auxiliam ou são a própria divindade que guarda o mundo subterrâneo. Eles
impedem que os vivos transitem no espaço consagrado à morte.

Desta forma fica atestada a ligação do cão com presságios de morte e travessia de portais do submundo na antiguidade. Há uma continuidade da crença no folclore inglês: se um cão olha para o nada sem razão aparente e você olhar entre suas orelhas, neste momento verá um fantasma.
Nehalennia sendo uma divindade local que auxiliava navegadores nas travessias, possui um caráter de deusa de passagem. O cão representado geralmente ao seu lado tem o papel de companheiro, guia e protetor.

Uma vez que em outras narrativas mitológicas celtas ele figura também como um limite para o submundo, possivelmente na mitologia perdida da deusa também tivesse este significado. Desta forma, além de seus aspectos ligados à fertilidade da terra, travessia segura no mar a deidade poderia estar ligada à
passagem para o outro mundo.

Nehalennia e seu companheiro de jornada
Deusa Celto-germanica associada aos mares, é apresentada em cento e sessenta altares, cuja maioria está situada na Holanda, na província de Zelândia e dois em Colônia na Alemanha, o que pode demonstrar um
deslocamento do culto do litoral para o interior. A inscrição votiva mais facilmente encontrada é do altar erigido por Marcus Secundinius Silvanus que morava em Colônia e dedicou a esta deusa sua gratidão em razão de uma boa travessia no Mar do Norte, conhecido como de difícil navegação e importante
para o comércio de âmbar e pérolas (CHEVALIER,1984:342). Outro altar votivo em Colijnsplaat traz estes dizeres:

À Deusa Nehalennia
Vegisonius Martius, cidadão Sequano e navegador,
Cumpriu seu voto
De boa vontade e dignamente *18

18 Esta tradução nossa para o português refere-se à versão em inglês traduzida do latim
19 Colijnsplat é a localidade muito próxima de onde no passado seria Ganuenta, assentamento romano.

Os cultos parecem ter sido centralizados em Walcheren na Holanda devido à quantidade de altares concentrados lá. Interromperam-se abruptamente em função da inundação do santuário. Em agosto de 2005 a réplica do Templo de Nehalennia em Colijnsplaat*19 foi aberta ao público. Não é possível saber que formas tinham tais cultos, porém através da iconografia dos altares nota-se que a deusa possui uma ambigüidade de aspectos. Ao mesmo tempo em que aparece com um semblante suave, jovem e bondoso, sentada como uma matrona (fig. 1), em outras esculturas (fig. 2) figura com um dos pés sobre um navio. Esta atitude nos parece aconselhar vivamente que, observe-se o poder da divindade em questões relacionadas às navegações. Ainda, se o dedicante não procedesse de forma correta, a divindade poderia destruir seu barco.


Nehalennia pode ter sido uma deusa local da tribo dos Morini (GREEN, 2003:11).
Ela possuiria poder sobre as forças naturais e por isso seria necessário seu concurso ao atravessar o Mar do Norte. Plínio O Velho (História Natural IX), conta-nos a respeito das espécies avantajadas que povoavam o Mar do Norte e é bem fácil imaginar o certo temor com que os homens do mar convivessem nestas
viagens. A necessidade de ter uma deusa em sua proteção era imperiosa a fim de vencer além dos conhecidos nevoeiros da região, a ferocidade das ondas. As colocações do escritor romano representam muitas vezes estes perigos como animais fantásticos. O cão reforçaria a idéia de proteção; uma sentinela que
com suas percepções aguçadas, sinalizaria quanto ao perigo.

O nome Nehalennia apresenta segundo Séamus de Napier (199[?]:50) uma derivação de na hálainne, na háille que em antigo irlandês significa “da beleza”, a partir daí pode-se interpretar como um epíteto para a divindade. Outras associações, entretanto podem ser feitas a partir do radical de seu nome: nebh ou nek que correspondem respectivamente a céu/nuvens, nevoeiro e morte/trazer de volta (The American Heritage Dictionary of the EnglishLanguage.2000), leva também o sufixo lennia que parece ser romanizado
possivelmente uma ligação com matronae (LENDERING,2002) – natural por força da ocupação romana e do comércio intenso.

Sua descrição na iconografia mais comum é ao lado de um cão com uma cesta de frutas (maçãs) ou pães. Pode estar entronada ou de pé, mas sua atitude é de comando. A figura do cão aparece ao lado dela emparelhado ou, em posição com certo afastamento virando a cabeça de maneira afetuosa ou reverencial. Tanto as maçãs como a figura do cão, levando em conta a simbologia de ambos os itens dentro das
tribos célticas, são elementos que indicam travessia para o outro mundo.


Além disso, a presença do cão garante a segurança nos negócios aos viajantes que além dos víveres e outros artigos, transportavam somas em dinheiro e eram homens influentes com acesso a cidadania, vivendo e agindo à maneira romana (VERBOVEN, 2005:11). Através do estudo das características das religiões, é possível notar que, embora haja uma peculiaridade religiosa para cada povo que cultuaria esta deusa, existem também traços comuns. A saber: Divindades que presidem o submundo e o cão como limitador desta esfera; Deuses controlam fenômenos naturais, daí uma relação contratual com eles: Uso de oferendas e ex-votos em locais abertos e a imagem do barco como elemento de ligação com o outro
mundo. Por fim, a sazonalidade dos ritos. 

Desta maneira acreditamos que a partir destes elementos comuns, tornou-se mais fácil um intercâmbio ritualístico e de representações imagéticas entre as referidas culturas, ampliando o alcance de uma deusa local e apropriações religiosas. Iconografia antiga da deusa, iconografia atual e continuidades.Visando o estudo da iconografia antiga reunimos um conjunto de imagens disponíveis na internet em um acervo organizado por museus e outras instituições dedicado à memória holandesa. Foi possível identificar surpresas iconográficas como um conjunto de maçãs sobre a cúpula, laterais com cornucópias ou ramos, teto de duplo caimento, colunatas e o formato de concha. Os elementos com significância simbólica foram analisados através de um quadro comparativo entre as culturas celta, germânica e romana e da proposta metodologica para estudos de iconografia e iconologia de Erwin Panofsky. A predominância do elemento romano é marcante, mas funda-se e imprime poder pelas similaridades religiosas entre os três grupos étnicos. Privilegiamos neste trabalho a análise da iconografia atual.

No trabalho de Guido Metsers, “Nehalennia op Mondriaan-bank” fundem-se passado e presente. A nacionalidade holandesa de Mondrian e sua forma racionalmente inovadora complementam-se com a deusa nativa e sua estética romanizada igualmente idealizada. É interessante notar que a trajetória de Mondrian passa pela busca da luz no impressionismo, desenvolve uma fase simbólica com seu ingresso na teosofia para chegar à sua fase abstrata. Desta forma unem-se o misticismo da deusa em si com a aura mística do consagrado artista. Já Metsers criador desta fusão, trabalha com o realismo mágico numa interferência na paisagem unindo duas pontas da história local. Na pintura de Jeroen van Valkenburg o elemento místico é que alimenta a criação. A deusa em sua obra não se apresenta com o cão e sim numa interpretação mais livre que privilegia o aspecto fluido da água. Sua predileção por religiosidade e a imaginária Viking aparece nos entrelaces na figura da deusa. Na escultura de Anniemarie Han- Schooneveldt a deusa é retratada afagando seu cão com semblante tranqüilo desaparecendo a atitude de comando da antiguidade.


Através das imagens é possível perceber o referencial de identidade construído pelo povo holandês na atualidade. Donna Kaunike, artista de Cortland- Ohaio, faz uma representação a pedido de um grupo de neo-pagãos. Nesta imagem o cão tem tamanho avantajado, pois representa os seguidores desta “Tradição
Nehalenica”. Esta tradição pagã chamada Nehallenic Tradition of Wicca organiza cultos dedicados à deusa nos EUA. A base religiosa foi montada em meados de 1970 na Philadelfia com pessoas de diferentes origens do norte da Europa e possui núcleos no referido continente. Seu sistema consiste na aceitação de membros que se familiarizarão com os princípios e a partir daí serão dedicantes passando por três graus ajudados por membros mais experientes.

O panteão cultuado tem como deusa maior Nehalennia.
A deusa teve garantida sua permanência de diversas formas. Uma libélula foi batizada com seu nome no século XIX e também um asteróide em 24/09/1960. A escritora Marion Zimmer Bradley aponta em seu livro, A Sacerdotisa de Avalon (2000) a devoção de um germânico para com esta divindade. Os trabalhos musicais e de narração de mitos celtas do flautista Jules Bitter tem diversas referências à deusa, inclusive um cd especial com seu nome. A sinfonia foi executada na reabertura do templo em 2005 (já mencionado anteriormente). A dupla regional Hoed en de Rand em seu cd Musicas para o mar apresenta uma composição dedicada à Nehalennia.

No Brasil as tradições neo-pagãs de origem germânica e alguns ramos wiccanianos cultuam esta deusa. Nutrem sua devoção com publicações específicas religiosas e/ou com base histórica. Uma Tradição Germânica sediada em São Paulo, a coloca na classificação de uma Vanir, provavelmente baseando-se na teoria de Hilda Davidson (2004: 141) e/ou na escritora pagã Mirela Faur (2007 :110-111).

Conclusão
Nehalennia é citada como deusa proto-céltica, também como protogermanica e o fato de ser marítima corrobora para a construção de uma atmosfera misteriosa. É possível concluir que esta deusa pode ser encarada também como deusa psicopompa, pelas características estudadas da divindade, sua proximidade com o cão, maçãs e barco em especial. Embora não tenhamos conhecido registro epigráfico afirmando isso, temos a iconografia, a etimologia e a semelhança entre as divindades que se apresentam na companhia de um cão. Além disso, ela é uma deusa que ajuda na travessia marítima dos comerciantes. Estes ex-votos funcionam como uma demonstração de poderio econômico, já que somente homens livres e com
recursos poderiam encomendar tais peças ou erigir templos.

O papel do cão poderia ser dividido em dois aspectos: do cotidiano e da vida espiritual. Vez por outra estas facetas se misturam, pois o cão é guardião em ambas as esferas. Sua função na vida cotidiana seria a de proteger, guiar e de companhia, além de caça e pesca. No aspecto espiritual ele seria aquele que guia para a outra vida e que protege este limiar impedindo que estes mundos se confundam. Ainda com relação aos deuses o cão mostra-se fiel, mantendo a mesma postura que mantém no mundo físico. A ferocidade do cão
descrita nos mitos, como no caso do Cérbero ou de Garm, contrapõe-se aos escritos lapidares da Gália onde os cachorros são vistos como doces, meigos e dignos da saudade humana. A ambigüidade fica posta, pois é também compartilhada por este tipo de divindade.

A iconografia de Nehalennia da antiguidade apresenta este caráter dúbio, ora com semblante suave de uma matrona, ora com olhar severo e o pé sobre o barco. Um símbolo de fertilidade, abundância, mas também de força. As representações atuais, entretanto, demonstram apenas o lado suave da divindade, aquela que agracia o povo Holandês com elementos para sua identidade. A estética clássica romanizada também colabora para a construção da idéia de um passado digno. A reconstituição do Templo e a descoberta dos
altares trazem visibilidade na comunidade européia no campo histórico e arqueológico, servem como referência para a arte contemporânea e estimulam o turismo atual.

O culto neo-pagão para esta divindade atualmente dá-se na Holanda (e alguns outros países europeus), Eua e Brasil. Como o conhecimento religioso é inspiracional e baseado na fé, muitas tradições apresentam variações na forma de conceber um perfil e um culto para Nehalennia.

Renata Macedo Maia da Silva17- PPGHC/UFRJ
NEA - Núcleo de Estudos da Antiguidade Universidade do Estado do Rio de Janeiro
www.nea.uerj.br

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