Bolinha (Conto)

(Baseado numa história real)

Eu me chamo Bolinha. É que tenho , ou melhor tinha, uma enorme verruga no canto da boca. Por isso me deram esse apelido engraçado. Eu vaguei pelas ruas desde muito novo. Meus pais me recusaram e desde cedo tive que lutar para sobreviver.

Você sabe, a vida na cidade não é fácil mas, eu encontrei um pessoal que gostava de mim. Finalmente eu fora adotado. Eles me deram abrigo e comida. Eu era pele e osso nessa época e, como todo morador de rua, sofri o preconceito das pessoas que se achavam bem de vida e acima das misérias alheias.

Sempre fui muito alegre e dado a brincadeiras. E essa nova família parecia adorar isso. Só que eu tinha o que eles chamavam de “defeito”. Eu saia de manhã e só voltava a noitinha, cansado e com fome. Eles brigavam comigo, diziam que não me deixariam mais entrar e coisa e tal.


Eles não entendiam o que eu fazia. Não entendiam que esse era o meu trabalho. Falavam que eu vivia com os traficantes, que eu era “aviãozinho ”, que só voltava para casa para dormir e para comer. De certa forma era verdade. Eu passava fome durante todo o dia, até porque a família que eu ajudava sem meus pais saberem, não possuía o bastante nem para eles. Mas minha presença alegrava-os e eu estava completamente apaixonado pela menina deles. Luana...

Ah, ela era tão linda e meiga, claro que eu amava minha família, mas eles não precisavam de mim como a Luana. Todos os dias, quando eu chegava na favela, ela estendia os braços e me enlaçava até quase me enforcar. Me beijava e dizia que estava com saudades. Só eu entendia o que ela dizia. Acho que era o amor que fazia com que compreendêssemos um ao outro.

Então eu passava um dia maravilhoso ao lado dela. A fazia sorrir, brincar, coisas que apenas eu e mais ninguém, conseguia dar à ela. Vida.

Então, dependendo do entusiasmo dela, eu ficava até mais tarde, mesmo sabendo que meus pais adotivos ficariam zangados com meu aparente , sumiço. Uma vez tentaram me prender em casa mas, eu chorei e gritei tento, que os venci pelo barulho. Desci a rua correndo e troquei um oi discreto com os traficantes que, por sinal, já me conheciam.

Esse meu trabalho durou alguns meses, não sei precisar quantos, mas me lembro bem do dia em que tudo terminou. Eu tomei meu café com meus pais e irmãos adotivos, meu pai me deixou sair e eu cruzei a rua. Sentia o vento batendo contra meu rosto. Estava feliz, veria Luana novamente.

Cruzei rapidamente as pequenas vielas e deparei-me com o barraco de Luana. Havia uma movimentação estranha naquele dia. Alguns vizinhos entravam no barraco e saiam chorando. Fui empurrado e só com muito esforço consegui entrar para vê-la.

Seus pais choravam em volta a cama. Os adultos sempre faziam isso quando algo muito triste acontecia. Eles me viram entrar e me apontaram, choraram ainda mais. Me aproximei mais e a vi.

Ela estava deitada sobre as cobertas remendadas que eu tanto conhecia. Seus olhinhos estavam fechados. Falei com ela mas, ela não me respondeu. Era a primeira vez que ela não queria falar comigo.

Quando os bombeiros entraram, é que comecei a compreender o que realmente havia acontecido. Luana não brincaria mais comigo. Eu não ouviria mais aquela risada alegre, seus gritinhos estridentes. Sua mão carinhosa, seu olhar feliz. Aquilo era o que os homens chamavam de Morte.

Luana morrera.

Saí de lá muito abatido. Eu sabia que Luana era diferente das outras crianças. Ela não andava. Vivia sentada naquela cadeirinha de madeira que o pai dela lhe fizera. Seus olhos também não eram iguais aos das outras crianças, nem seu rosto ou suas mãos. Eu ouvi um bombeiro dizendo que ela era deficiente, uma criança especial. Pelo menos para mim Luana sempre fora especial.

Eu sabia sobre suas crises respiratórias. Sobre o tratamento caro que ela necessitava e que seus pais não podiam pagar. Sabia que cedo ou tarde ela me deixaria, mas ignorei tudo isso só para fazê-la feliz.

Voltei muito tarde parta casa naquele dia. Meus pais brigaram comigo. Me chamaram de vagabundo, rueiro e sem vergonha. Fugi no outro dia, queria ver Luana, mesmo sabendo que ela não estava mais lá. Parei na metade do caminho. Revi o rosto do meu pai adotivo. Ele sempre me xingava e mesmo assim me deixava entrar. Depois me agradava com palavras alegres e me fazia dormir quentinho.

Eles faziam por mim, o que eu fazia por Luana. Naquele dia voltei mais cedo do que de costume. Chamei-os e os vi saindo com sorrisos nos rostos. “ Ah, chegou cedo hoje hein, sem vergonha”. Eles jamais saberiam sobre Luana e sobre minhas escapadas para vê-la.

Entrei e saltei sobre minha mãe. Eu os amava. Precisava deles e eles de mim. Olhei para minha casinha, sempre arrumada aguardando minha volta. Lambi meus pais e fui me deitar. Nunca mais eu os deixaria novamente, bem talvez, apenas para ir até a padaria

Sim, eu sou um cachorro.

Um cachorro para quem Deus deu a grande missão de amar.

Simone Nardi
Fonte: http://irmaosanimais-conscienciahumana.blogspot.com.br/2015/01/bolinha-conto.html


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