Abandono nas férias: indiferença e crueldade

É triste, mas é verdadeiro: quando chega o final do ano, muitas famílias vão viajar e simplesmente abandonam seus pets. E o pior é que, não raro, “arranjam outro bicho” quando voltam das férias…

Quando o final do ano se aproxima, o telefone da ARCA Brasil toca sem parar e as caixas de e-mail da entidade ficam repletas de pedido de ajuda. As mensagens quase sempre são na linha do “vou viajar e não posso mais ficar com meu bicho”, ou “tem um cão aqui onde eu moro e ele precisa de dono – por favor, me ajudem!”.

E por que a época de final de ano é crítica?

Além das viagens de férias e das visitas a parentes e amigos que residem em outras localidades, é nessa época que muita gente escolhe mudar de moradia, emprego, cidade… Enfim, começar vida nova. E nem sempre o pet é levado em conta nessa equação.



Tanto isso é verdade que, se compararmos um mês tido como “neutro” (setembro, por exemplo) com o auge das férias (janeiro), percebemos um sensível aumento no número de pedidos de “ajuda” relativa a abandonos/doações de animais pelo Fale Conosco. Em janeiro de 2011, houve 159 e-mails desse gênero, contra 88 em setembro do mesmo ano.

O fenômeno se repetiu em 2013: 92 e-mails em janeiro, contra 20 em setembro. E essa tendência já se faz perceber em 2014: apenas 5 em setembro e 38 em novembro.

Por que acontecem abandonos?

Se muitas vezes somos otimistas em dizer que a sociedade está mudando e que o bicho, hoje, é visto como um membro da família, como justificar tantos abandonos?

Uma explicação pode residir na mentalidade, ainda vigente em boa parte da coletividade, de que o animal é uma “coisa”, um “objeto”. Estamos inseridos em uma sociedade de consumo que rapidamente descarta o que não serve mais, que troca o velho pelo novo, que não “se apega”. Assim, o animal, pode simplesmente ser jogado fora porque se tornou “inconveniente” ou cresceu demais, e substituído por um novo quando a família “começa a sentir falta” de ter um pet…

Concretamente, hoje, tem gente que se livra do animal porque quer viajar e não se dispõe a pagar um hotelzinho ou cuidador (veja Box), nem a levar o pet junto com a família. Ou, ainda  mais simples, se articular com o(a) vizinho(a) ou amigos para passarem  alguns momentos na casa e fazerem o papel dos donos.

Esse quadro só vai mudar quando houver mudança de cultura. As pessoas devem entender que, quando trazem um bicho para casa, assumem a responsabilidade de cuidar dele até o final de sua vida – e não somente enquanto ele for “conveniente”, “fofinho” ou “engraçado”.

Calcula-se que, nos grandes centros urbanos, existe um animal abandonado para cada cinco habitantes.  Abandonar um animal é cruel, antiético e reconhecido como crime, conforme determina o artigo 32 da Lei de Crimes Ambientais:

Lei nº 9.605 de 12 de Fevereiro de 1998
Dispõe sobre as sanções penais e administrativas derivadas de condutas e atividades lesivas ao meio ambiente, e dá outras providências.
Art. 32. Praticar ato de abuso, maus-tratos, ferir ou mutilar animais silvestres, domésticos ou domesticados, nativos ou exóticos:
Pena – detenção, de três meses a um ano, e multa.
§ 1º Incorre nas mesmas penas quem realiza experiência dolorosa ou cruel em animal vivo, ainda que para fins didáticos ou científicos, quando existirem recursos alternativos.
§ 2º A pena é aumentada de um sexto a um terço, se ocorre morte do animal.

Boas intenções não bastam

Há casos em que os guardiões realmente gostam de seus animais, mas nem por isso tomam os cuidados necessários para preservar seu bem-estar em situações que fujam à rotina.

Bichos se assustam com fogos, por exemplo, e quem tem cães e gatos deve cerca-los de zelo para que eles não sofram demais nas comemorações de réveillon. Os cuidados vão desde a colocação de protetores auriculares até o reforço em portas e portões, de modo a evitar fugas. Quando se viaja com o pet, é preciso, também, mante-lo em local bem seguro, pois ele pode sentir medo no ambiente desconhecido e escapulir.

Ou seja: não basta ter a “boa intenção”, é preciso se empenhar de verdade e manter-se sempre bem informado.

Alternativas para quem vai viajar

Vai ficar uns dias fora e precisa cuidar bem do seu amigão? Além das clássicas alternativas de deixa-lo em um hotelzinho ou de pedir para um vizinho, parente ou amigo passar na sua casa para tratar dele, você também pode recorrer a um novo tipo de serviço que começa a se disseminar pelo país. Trata-se da atividade de PetSitter, uma espécie de “babá para animais”, que cuida dos bichos enquanto os guardiões estão ausentes. Esse tipo de profissional oferece cuidados
personalizados, tais como passeios, banhos, limpeza de orelhas, corte de unhas, medicação etc.

O PetSitter pode se deslocar até a casa do animal ou hospeda-lo. Vídeos, fotos e informações são passadas aos guardiões diariamente, para mostrar que o pet vai muito bem, obrigado! Há desde petsitters “informais” – pessoas que gostam de bichos e encontram, dessa maneira, um meio interessante de complementar a renda – ou bem profissionalizados. Em ambos os casos, pesquise para descobrir se o serviço é bem recomendado e não tem reclamações.

Só não caia na tentação de deixar o bicho sozinho “só por uns dias, com água e comida à disposição”. Há quem faça isso, mas certamente é uma péssima alternativa, como explica a médica veterinária Rúbia Burnier, do Espaço Animal: “Não se deve deixar o animal sozinho com comida e água paradas. Todo alimento, seja ele industrial ou caseiro, perde qualidade e pode atrair insetos”, afirma.

E os medidores automáticos, oferecidos como soluções milagrosas em muitas pet shops?

Infelizmente, eles também não resolver o problema. Rúbia Burnier explica: “Se o animal permanece sozinho, pode apresentar transtornos compulsivos, como uivados. O melhor é optar por um hotelzinho ou contratar uma pessoa para cuidar do bicho. Ficar sozinho causa sofrimento físico e psicológico para o animal”, completa a especialista.

Um cuidador custa caro?

Existem opções para todos os gostos – e tamanhos de bolso. Apaixonada por gatos, a paulistana Edna Nogueira, 50 anos, sempre foi “convocada” pelos amigos que iam viajar a “dar uma passada” pelas suas casas para cuidar dos bichos enquanto estivessem ausentes. De uns tempos para cá, ela percebeu que poderia transformar a prazerosa atividade em uma fonte de renda extra.

“Cobro 30 reais por uma visita de uma hora e meia. Eu limpo o ambiente, dou a comida, brinco, dou remédios… Enfim, faço o necessário”, explica. “Também envio fotos e vídeos via whatsapp ou email, de acordo com a vontade do guardião.”

Para que o bicho não a estranhe nem fique amuado com sua presença, Edna faz questão de conhecer o “cliente” de quatro patas antes de assumir o trabalho. “Assim conheço o animal e converso com os guardiões para entender melhor suas necessidades”, esclarece.

Ainda na informalidade, Edna não faz nada por escrito. Mas não descarta a possibilidade de profissionalizar, cada vez mais, o serviço que tem feito por prazer. “Uma coisa eu sei: gostar de bicho é condição essencial para fazer esse trabalho”, conclui.

Fonte: http://www.arcabrasil.org.br/blog/2014/12/abandono-nas-ferias-indiferenca-e-crueldade/

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