Apego aos bichos

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Com 100,00 m 2 de terra fértil à nossa disposição, estudantes, professores e eu nos deliciávamos com períodos diários de jardinagem e de trabalho ao ar livre. Tínhamos diversos animais de estimação, inclusive um veadinho, ternamente idolatrado pelas crianças. Eu também amava o pequeno cervo a ponto de permitir que ele dormisse em meu quarto. Ao raiar a madrugada, a criaturinha aproximava se, tropeçante, de minha cama, para uma carícia matutina.

Um dia, quando certo negócio exigia minha atenção na cidade de Ranchi, alimentei o animalzínho mais cedo do que de costume. Disse aos meninos que não lhe dessem comida até o meu regresso. Um deles, desobediente, lhe deu uma grande quantidade de leite. Ao voltar, à tarde, tristes novas me esperavam:   O filhote de corça está quase morto, devido à superalimentação.

Em lágrimas, coloquei o bichinho inanimado em meu colo. Orei piedosamente a Deus para que a vida lhe fosse poupada. Horas depois, a pequena criatura abriu os olhos, ficou de pé e caminhou, muito fraca. A escola inteira gritou de alegria.

Naquela noite, porém, aprendi uma lição profunda, que jamais poderei olvidar. Eu permanecera velando o animalzinho até duas horas da madrugada, quando adormeci. O veadinho apareceu me em sonho e me disse:   O senhor está me segurando. Por favor, deixe me ir; deixe me ir!
Muito bem  respondi em sonho.

Acordei imediatamente e gritei:   Meninos, o veadinho está morrendo!   As crianças correram para junto de mim. Precipitei me para o canto do quarto onde colocara o animalzinho querido. Ele fez em último esforço pata levantar se, cambaleou em minha direção e em seguida tombou a meus pés, morto.

De acordo com o carma de um grupo que guia e regula os destinos dos animais, o prazo de vida do veadinho chegara ao fim, e ele estava pronto para progredir a uma forma mais elevada. Entretanto, com meu profundo apego, que mais tarde reconheci ser egoísta, e com minhas preces fervorosas, eu conseguira reter aquela vida nas limitações da forma animal enquanto sua alma lutava por se desembaraçar. A alma do veadinho fez sua súplica em sonho porque, sem minha amorosa permissão, ele não podia ou não queria partir. Assim que concordei, ele se foi.

Toda tristeza me abandonou; compreendi mais uma vez que Deus quer que Seus filhos amem a cada coisa como uma parte Dele, e não sintam ilusoriamente que a morte é o fim de tudo. O homem ignorante vê apenas o muro intransponível da morte, ocultando para sempre os amigos queridos. Mas o homem sem apego, o que ama os outros como expressões do Senhor, compreende que na morte os seres amados apenas regressaram para um hausto de alegria em Deus.
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Trecho do livro Autobiografia de um Iogue (de Paramahansa Yogananda)

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