Animais Terapeutas

Quem chega à casa da veterinária Hannelore Fuchs, doutora em psicologia pela Universidade de São Paulo (USP) e especialista em comportamento animal tem grandes chances de ser recebido, logo no jardim, pela tartaruga Telha. Se o visitante abaixar-se com delicadeza, provavelmente o animal não se esquivará ao toque. Alguns metros adiante, em direção ao consultório onde Fuchs atende seus pacientes — tanto bichos quanto pessoas — para acompanhamento psicológico, certamente encontrará a simpática cadela Violeta Maria, sem raça definida (SRD). Ela não costuma latir, saltar sobre visitantes ou tentar lambê-los. Educada, aproxima-se das pessoas com cuidado e, se for bem acolhida, se oferecerá ao afago. Pudera. Está acostumada a conviver com crianças, idosos, pessoas hospitalizadas e com deficiências físicas e mentais. Assim como Telha, ela é um “animal terapeuta”.
         
Outros animais que vivem na casa da veterinária — a poodle Patty Helena, a vira-lata Boni e Banzé Bagunça, o pastor de Berna — também são mansos e participam do programa Pet Smiles, criado há dez anos. Todos visitam asilos, hospitais, escolas. Atualmente são nove entidades atendidas — entre elas o Instituto de Tratamento do Câncer Infantil (Itaci), Unidade Hemopediátrica da Unifesp, Lar Escola São Francisco, Hospital Santa Casa de São Paulo, Residencial Albert Einstein (onde vivem idosos), Hospital da Criança e quatro enfermarias de adultos do Hospital Nossa Senhora de Lourdes. Em uma década já foram realizados aproximadamente 11 mil atendimentos.

Em geral, as visitas mensais dos “bichos voluntários” (há também chinchilas, coelhos e um gato no grupo) têm hora para começar, mas não para terminar. Muitas vezes, a simples presença do animal estimula processos mnemônicos e cognitivos, ajuda idosos a relembrar fatos da juventude, motiva pacientes a enfrentar tratamentos desconfortáveis e dolorosos com menos resistência, favorecem a recuperação física e estimulam a criatividade e a predisposição ao aprendizado de crianças com atrasos no desenvolvimento físico ou mental. Outros trabalhos similares ao Pet Smiles têm sido desenvolvidos no país.



ALTERAÇÃO HORMONAL

Relatos clínicos e reflexões de autores como Bons Levinson, o casal Samuel e Elizabeth Corson e Nise da Silveira a respeito de intervenções com participação de animais inauguram uma nova área de investigação. Conforme lembra a psicóloga Sabine Althausen, autora do artigo “Diálogo sem palavras” , esse campo abarca os saberes da psicologia, etologia, sociologia, antropologia, medicina veterinária e outros. Nos anos 80 houve um crescente interesse pelo tema, mas foi na década de 90 e na atual que os estudos acadêmicos aumentaram significativamente, principalmente nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha.

No Brasil, depois da experiência da psiquiatra Nise da Silveira nos anos 60, os relatos apontam para iniciativas isoladas de intervenção com uso de animais, realizadas, em grande parte, por profissionais da área de saúde e comportamento animal e por alguns poucos profissionais de educação.

Mas o convívio com animais teria mesmo efeitos sobre o metabolismo das pessoas, a ponto de influir na saúde física e mental? Um estudo desenvolvido pelos pesquisadores Johannes Odendaal e Susan Lehmann publicado em 2001 pelo Journal of the American Association of Human Animal Bond Veterinarian (AAHABV) mostra que a interação entre cães e humanos deflagra — em ambos— alterações hormonais que afetam o nível de endorfinas beta, febilata lamina, prolactina e oxitocina por períodos médios de 15.minutos. A liberação dessas substâncias diminui no organismo a ação do cortizol, o hormônio do stress, provocando sensações de bem-estar.

Em outra investigação, os mesmos pesquisadores se empenham em descobrir os efeitos que a interação com animais, associada à psicoterapia, tem sobre os aminoácidos presentes nos neurotransmissores de pessoas com depressão. “Há mudanças químicas no cérebro e no sistema imunológico. É um processo contrário ao que se dá em situações de stress, nas quais há supressão de determinadas substâncias”, afirma o presidente da Organização Brasileira de Interação Homem- Animal Cão Coração (OBIHACC), Jerson Dotti, criador do Projeto Cão do Idoso e autor do livro Terapia & animais, de 2005.

Seis voluntários diagnosticados como deprimidos participaram de um dos estudos mais recentes de Odendaal. Durante a fase de teste, todos recebiam diariamente a visita de um cão. Antes e depois eram realizadas medições sangüíneas de aminoácidos que indicavam a presença de serotonina e dopamina. Resultado: a presença dessas substâncias aumentava após o encontro dos pacientes com os animais.

Nessa mesma linha, um estudo com 6 mil pessoas realizado no Instituto Baker de Pesquisas Médicas, Austrália, pelo médico Warwik Anderson, mostrou que proprietários de cães e gatos tinham taxas menores de colesterol e triglicérideis que aqueles que não tinham bichos. Indireta mente, os animais também trazem benefícios. Pesquisadores do Centro Médico Hospitalar de Northridge, Estados Unidos, constataram que apesar de predispostos a doenças cardiovasculares em decorrência de fatores de risco como fumo, e excesso de peso, os pacientes obtinham melhoras significativas — como diminuição de pressão arterial e colesterol — após adotar um bichinho de estimação que exigisse sua dedicação diária, já que os cuidados, principalmente com cães, motivam não só a troca afetiva, mas também o exercício físico — em especial as caminhadas. Por causa de constatações como essas, nos últimos anos algumas companhias americanas de seguro passaram a oferecer descontos para donos de animais.

            CAVALOS PARA CURAR

No Brasil, a única forma de tratamento com animais usualmente prescrita por médicos ainda é a equoterapia, na qual cavalos são utilizados em exercícios de pacientes com paralisia cerebral, autismo e síndrome de Down. Em 1997, o tratamento foi reconhecido como “método terapêutico” pelo Conselho Federal de Medicina.

“Há registros de que em 370 a.C. Hipócrates já aconselhava a equitação para regenerar a saúde e preservar o corpo humano de muitas doenças, sobretudo para o tratamento da insônia, pois afirmava que a equitação ao ar livre faz com que os músculos melhorem o seu tônus”, diz o fisioterapeuta Romeu Escolástico Filho, coordenador técnico da Associação de Pais e Amigos das Pessoas Portadoras de Necessidades Especiais (Apape). Ele dirige também o projeto No Galope da Equoterapia e Criando Asas, que atende crianças de até 6 anos com algum tipo de deficiência. O objetivo é a estimulação precoce e a inclusão social e escolar. Nas instituições são atendidas cerca de 100 crianças e adolescentes, entre 2 e 18 anos.

Segundo Escolástico Filho, a prática de equitação facilita a reconquista do equilíbrio postural de pessoas que sofreram mutilações e amputações. Médicos do século XV já observavam em feridos de guerra e pessoas com lesões no sistema nervoso central que continuaram a cavalgar a diminuição da espasticidade . Também são observados benefícios como a tendência do cavaleiro sintonizar sua respiração com a o animal que cavalga, o que proporciona relaxamento muscular: o resultado é diminuição da ansiedade e o controle de problemas de insônia.

As reações são provocadas pelos movimentos tridimensionais do dorso do cavalo em movimento — vertical, horizontal e diagonal — comparadas à ação da pelve humana ao andar. A experiência aprimora a propriocepção profunda e proporciona estimulações vestibulares — melhorando, assim, as noções de equilíbrio, distância e lateralidade. Os cavalos provocam, no mínimo, um movimento por segundo, e a cada um deles o cavaleiro deve “organizar” suas funções neurológicas e sensoriais.

Em Minas Gerais, além de terem sido adestrados para buscas e salva mentos, quatro labradores e quatro golden-retrievers do corpo de bombeiros ajudam na terapia de crianças com deficiências como paralisia cerebral, síndrome de Down, déficit de atenção, hiperatividade e autismo. Nesses moldes, a iniciativa é pioneira no Brasil.

As sessões são realizadas desde 2004 nas Associações de Pais e Amigos de Excepcionais (Apaes) de Belo Horizonte e Sabará.

Quando ainda são filhotes os cães demonstraram características individuais que ajudaram a definir suas “carreiras” na corporação: salvamento ou terapia. Segundo a coordenadora da Apae-Sabará, Geralda Virgínia Guimarães Fantini, os resultados foram muito bons e a acelaração no desenvolvimento, visível. Resultado: a procura pela cinoterapia aumentou. “Hoje temos cerca de 40 pessoas na fila de espera, mas só podemos atender 25 crianças, pois o tratamento requer dedicação exclusiva por parte dos profissionais.”

PATROCÍNIO

Desde 2004 um grupo de profissionais de Brasília vem utilizando a terapia assistida por animais (TAA) no acompanhamento de pacientes com demência no Centro de Referência para Doença de Alzheimer do Hospital Universitário de Brasília (HU-UnB). Durante as sessões de fisioterapia os pacientes acariciam o pastor de Berna Barney e o golden retriever Ventus e brincam com eles. A proposta é que por meio do estímulo afetivo provocado pela presença dos cachorros, os pacientes exercitem a memória, recordando, por exemplo, o nome e a cor dos animais. Não raro, muitos se conectam com lembranças da juventude, quando conviviam com animais. “Com isso, alguns idosos recordam detalhes da vida atual e até o nome de seus filhos”, diz o geriatra Renato Maia Guimarães, coordenador do projeto.

Em São Paulo, a OBIHACC, um grupo de profissionais da saúde, também comemora os resultados positivos obtidos com a aproximação entre cães e pacientes. Mas, em vez de cinoterapia, o termo utilizado é atividade e terapia assistida por animais. Uma das iniciativas desenvolvidas pelo grupo é o Projeto Cão do Idoso, criado em 2000 para oferecer apoio emocional a idosos que vivem em instituições. Atualmente, são atendidas 320 pessoas. A OBIHACC trabalha ainda com 50 crianças e 50 adultos, 80 voluntários e 60 cães. No ano passado a entidade começou a investir na realização de pesquisas que amparem sua prática.

Fofos ou Exóticos

Mesmo animais menos convidativos ao toque podem desempenhar papel terapêutico e educativo. Na Faculdade de Zootecnia e Engenharia de Alimentos da Universidade de São Paulo, em Pirassununga, são usados moluscos há seis anos no Projeto Dr. Escargot, que atende crianças com deficiência físicas e problemas de aprendizagem. Segundo especialistas estudantes e pacientes se identificam psiquicamente com características do molusco – hipotonia, “carapaça emocional” e necessidade de lidar, em algum nível, com a repulsa por parte de outras pessoas por sua condição física e mental. Embora pareça estranho no primeiro momento, o escargot apresenta várias vantagens em relação a outros animais é pacífico, não morde, não arranha, não causa alergias e é indiferente ao som.

Segundo a psicopedagoga Liana Pires Santos, do Grupo de Abordagem Terapêutica Integrada (GATI), crianças e adultos divergem quanto à preferência com relação ao bicho usado na terapia. Os mais velhos escolhem os animais mais “fofos”, ao passo que os pequenos preferem os mais exóticos. “Crianças hiperativas, psicóticas e autistas, por exemplo, tem verdadeira loucura por porquinhos-da-índia, ratinhos e coelhos, que são animais muito ágeis e oferecem constantes desafios para elas”, diz. Santos permite que seus pacientes façam essa opção, pois “o grande objetivo é criar um elo terapêutico, por meio do qual o animal se tornará o fiel depositário dos conflitos e das alegrias do indivíduo”. Segundo ela, a escolha de determinados bichos também revela um pouco da personalidade de cada um. Suas observações mostram que as pessoas tendem a procurar nos animais características – físicas ou comportamentais – que lhes ofereçam complementaridade psíquica ou identificação.


E Caralâmpia Ganhou um Dono

No Brasil, nas décadas de 50 e 60, a psiquiatra junguiana Nise da Silveira utilizou animais na terapia de pacientes internos. Ela percebeu a facilidade com que esquizofrênicos se vinculavam a cães. Em seu trabalho pioneiro com essas pessoas, a médica desenvolveu o conceito de afeto catalisado. Ela parte da idéia de que é importante que o paciente conte com a presença não invasiva de um co-terapeuta que permaneça com o doente, funcionando como ponto de apoio seguro a partir do qual o doente possa se organizar psiquicamente. Após ilustrar exemplos de co-terapeutas humanos, Silveira afirma que animais são “excelentes catalisadores”. Segundo ela, eles “reúnem qualidades que os fazem muito aptos a tornar-se ponto de referência estável no mundo externo”, facilitando a retomada de contato com a realidade.

            A aproximação dos internos do Centro Psiquiátrico Pedro II no Rio de Janeiro, começou por acaso quando foi encontrada uma cadelinha abandonada e faminta no terreno do hospital. Silveira tomou-se nas mãos e, percebendo a atenção de um dos internos, perguntou-lhe se gostaria de tomar conta do bichinho “com muito cuidado”. Diante da resposta afirmativa, a psiquiatra deu o nome à cachorrinha de Caralâmpia (personagem da A terra dos meninos pelados de Graciliano Ramos, inspirada em Nise da Silveira). Os resultados terapêuticos da incumbência assumida pelo paciente foram excelentes. Em sua obra, a médica faz referência a outros casos em que ocorrem relações afetivas entre pacientes e animais: Abelardo, paciente temido por sua irritabilidade e força física, assumia postura tranqüila e centrada quando tomava conta de alguns cães e gatos, mostrando-se apto a cuidar deles e investir afeto. Já a paciente Djanira teve sua capacidade criativa como pianista retomada por meio da relação com bichos. Nem sempre, porém as relações eram amistosas. “Os animais recebem também projeções de conteúdos do inconsciente que os tornam alvos de ódio ou temor excessivo”, escreveu a psiquiatra (Sabia Althausen)


CLÁUCIA LEAL é psicóloga, psicanalista, jornalista e editora da Mente&Cérebro; KÁTHIA NATALIE é jornalista

Revista Mente & Cérebro ed. 169 - Fevereiro 2007

Fonte: http://www.psiquiatriageral.com.br/terapia/animais_terapeutas.htm

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